quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Legitimidade Perdida

REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 141

Desgastada pelo uso severo consagrado no passado, a idéia de autoridade esfacelou-se no âmbito escolar. Para reconstruí-la, é preciso ao mesmo tempo respeitar o aluno e não abrir mão do ato de educar e da condição de adulto
Sérgio Rizzo

Conhecida pela tradição liberal, fundada nos ideais da Revolução de 1789, a França viveu em 1933 um episódio mais característico de ditaduras e de seus mecanismos de censura à liberdade de expressão. Em 7 de abril, foi exibido pela primeira vez em Paris o filme Zero em comportamento, escrito e dirigido por Jean Vigo (1905-1934), e lançado recentemente em DVD no Brasil. Se o sentido escolar do título por acaso passasse despercebido, o subtítulo se encarregava de deixar tudo bem explicado: "jovens diabos no colégio".

Em pouco mais de 40 minutos, conta-se a história de uma pequena rebelião arquitetada e executada pelos alunos de um colégio interno, que se consideram em uma "prisão", sob o controle autoritário da direção e dos professores. "A escola de Zero em comportamento, tirada das recordações de infância de Vigo, é também a sociedade tal como ele a vê adulto", observa o professor e crítico brasileiro Paulo Emilio Salles Gomes no livro Jean Vigo. "A divisão entre crianças e adultos no interior dessa escola corresponde à divisão em classes da sociedade: uma minoria forte que impõe sua vontade à maioria fraca."

O público francês da época reagiu mal a essa leitura. O cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, que vivia em Paris, escreveu no ano seguinte, em artigo citado por Salles Gomes, que "os espectadores se sentiram feridos em seus sentimentos burgueses pelo comportamento dos meninos, tal como o mostrava Vigo". Durante a primeira projeção, "foi preciso acender a luz várias vezes e a sessão quase terminou em tumulto". Parte das críticas feitas a Zero em comportamento se concentrava no que pareceu "falta de qualidade", mas a objeção aos seus valores também foi verbalizada.

"Irado, violento, destruidor, rancoroso, (o filme) parece insuflado por uma grande amargura que o autor guardou de um passado miserável num internato", escreveu o crítico Pierre Ogouz, também citado por Salles Gomes. "Infectado de grosserias, nocivo e áspero, estigmatiza os pedagogos viciosos e limitados, e canta com desespero um hino à liberdade." Não tardou para que o discurso se agravasse. "É duvidoso que a censura deixe circular esta fita que não serve absolutamente para crianças e não divertirá os adultos", provocou o periódico católico Omnium Cinematographe.

A "pressão dos padres" não foi determinante, mas teria contribuído para a interdição, decidida pela Comissão dos Censores, cujo presidente fez referência na ocasião a "filmes que possam criar problemas e prejudicar a manutenção da ordem", sem mencionar a obra de Vigo. "O governo pensava então que as projeções públicas desse filme poderiam criar problemas e prejudicar a manutenção da ordem", afirma Salles Gomes. Embora tenha sido exibido em seguida na Bélgica, uma vez que a censura francesa não pôde impedir a sua exportação, Zero em comportamento só voltaria a circular na França em 1945 e seria homenageado por François Truffaut em Os incompreendidos (1959), clássico inaugural da nouvelle vague (nova onda), um dos principais movimentos da história do cinema.

Mais de 75 anos depois, a insurreição imaginada por Vigo parece doce e até mesmo ingênua, embebida de muito humor e poesia. Foi capaz, no entanto, de incomodar a elite francesa porque ousava discutir um dogma: a autoridade escolar representada por professores e gestores. Os primeiros até poderiam ser, eventualmente, "viciosos e limitados"; em resposta a isso, os alunos poderiam sonhar com um "hino à liberdade" - como Ogouz bem resumiu a situação. Mas a sociedade se mobilizou para calar essa denúncia, ainda que pertencente ao campo da ficção. É provável que ocorresse o mesmo, nos EUA ou no Brasil, se algum cineasta ousasse naquele momento fazer algo semelhante. Não se questionava a autoridade da escola porque ela simbolizava o equilíbrio social.

A famosa cena da guerra dos travesseiros no filme Zero em comportamento, de Jean Vigo: símbolo poético da rebelião dos alunos ante uma autoridade que se exprimia por meio da opressão
Hoje, não é mais preciso que um filme trate do assunto; o noticiário traz, com incômoda freqüência, casos verídicos em que estudantes se insurgem contra a ordem vigente - e o fazem não com poesia e ludismo, mas com ódio e violência. Na França e no Brasil. Um dos mais recentes episódios registrados entre nós, em meados de novembro, envolveu a depredação da Escola Estadual Amadeu Amaral, no Belenzinho, bairro da zona leste de São Paulo. Uma briga entre duas alunas - acrescida do fato de os alunos serem mantidos na escola em período integral sem oferta de atividades - teria levado dezenas de estudantes a destruir carteiras e quebrar janelas, além de provocar outros danos às instalações. Incapazes de conter a revolta, os professores se isolaram em uma das salas e acionaram a Polícia Militar - que informou ter sido chamada anteriormente para intervir em incidentes semelhantes na mesma escola.

A ocorrência policial foi assunto da imprensa por alguns dias, mas rapidamente desapareceu do noticiário. Não gerou debate, exceto entre profissionais de educação. Não despertou indignação generalizada, como se a sociedade já estivesse acostumada a manifestações como essa e não enxergasse o que se revela de simbólico quando adolescentes, por meio de seus atos, querem dizer enfaticamente: não reconhecemos a autoridade de vocês, não gostamos deste lugar, não vemos por que ficar presos aqui, esperamos ansiosamente pelo momento de ir embora para viver a vida. Nesses casos, a outrora fraca maioria se insurge e precisa ser controlada à força; a minoria antes forte, agora admitindo fraqueza, pede socorro para impor a autoridade que, em tese, seria conferida a ela naturalmente.

A indisciplina, em especial quando recorre à violência física, é apenas a manifestação mais ostensiva do esvaziamento da autoridade educacional, a ser exercida tanto por professores quanto pela família. "A escola tem um ritual que lhe é?constitutivo. Quando ele é quebrado, é preciso 'ler' a ocorrência", analisa Carlota Reis Boto, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp).

"Alunos que depredam a escola estão dando um recado para a própria escola, mas?também um recado para a sociedade. Eles sinalizam que a instituição?não faz sentido para suas vidas, mas podem também sinalizar?que não encontram saídas para uma sociedade fraturada entre aqueles que possuem muito e aqueles que não possuem quase nada, em termos de?riqueza e de oportunidades."

Nas escolas onde há um ambiente de violência, "a sensação é de que ninguém ocupa seu lugar: os professores não ensinam, os alunos não estudam, os coordenadores não coordenam, os diretores não dirigem", diagnostica Flávia Schilling, também professora da Feusp. "Não há ninguém que consiga ocupar um lugar e o espaço escolar é tomado pelas brigas, pelos grupos, pela depredação e pelo uso privado do espaço. Os discursos sobre os alunos, por parte dos professores, são recorrentes e podem ser assim resumidos: 'nossos alunos são horríveis'."

O que se revela, na avaliação de Flávia, "é que há um desconhecimento em relação a quem são realmente esses alunos", que nunca foram "olhados como pessoas potentes, que podem ajudam a reverter o quadro existente". "O estabelecimento de acordos sobre como será a convivência é fundamental, assim como o trabalho com alguns projetos, um cotidiano rico de informações e conhecimentos, e a participação nas decisões", sugere.

O que constrói e o que destrói
Em O resgate da autoridade em educação, o educador francês Gérard Guillot é categórico em afirmar que vivemos hoje uma crise. Professor de filosofia na Universidade de Lyon, ele investiga o percurso que levou a autoridade educativa a entrar "em pane", sobretudo nas últimas décadas, a partir da definição dos sentidos do termo, distinguindo a autoridade que "destrói" da que "constrói".

A primeira, segundo Guillot, se fundamenta em "injunções destrutivas" - mensagens dirigidas às crianças que sabotam a construção de sua autonomia. Quando um menino chora depois de cair e alguém lhe diz que "não foi nada", ou resiste a comer algo e ouve o encorajador "experimente, você vai ver como é gostoso", o recado segue a linha do "não sinta, não pense e não exista por si mesmo".

"A autoridade que destrói toma o outro como refém", observa Guillot. "O paradoxo perverso em ação é o seguinte: entregue-se, seu cativeiro é a condição de sua liberdade futura. Confisco sua pessoa atual para restituí-la 'pronta' em alguns anos: você me agradecerá! (...) De fato, a tentação primeira dos pais ou dos professores reside na vontade, consciente ou não, de transformar a criança ou o aluno em objeto de desejo: seja pela reprodução da autoridade que eles próprios sofreram, seja por vontade de fazer melhor."

No sentido contrário, a autoridade que "constrói" permite à criança ou ao jovem sentir, pensar e existir por si mesmo, mas não se confunde com permissividade. "Não se trata absolutamente de deixar a criança se 'virar' com sua personalidade em construção e decidir sozinha o que lhe convém ou não", explica Guillot. "A autorização de sentir por si mesmo não é abandonar a criança a suas sensações e emoções. É reconhecer que seu corpo lhe pertence. Seus prazeres e suas dores a afetam de acordo com sua própria sensibilidade."

O adulto não vai, de acordo com essa atitude construtiva, "se contentar em constatar e caucionar tudo", pois tem "uma responsabilidade e um dever de acompanhamento da criança quanto ao que ela pode fazer de e com seu corpo". Esse modelo de exercício da autoridade educacional envolveria também a distinção entre respeito e tolerância. "Respeitar a pessoa é respeitar a condição humana", observa Guillot. Por decorrência, compreender que "a universalidade da condição humana não significa uniformidade: os seres humanos são, felizmente, diferentes uns dos outros, cada um com sua singularidade."

Já a noção de tolerância é mais "social e política". "Acredita-se freqüentemente que seja sinônimo de respeito, mas essa confusão pode se revelar grave", destaca Guillot. "Uma pessoa se respeita. Já a tolerância refere-se às condutas e às práticas, às ações, aos comportamentos. Tanto quanto o respeito é incondicional, a tolerância conhece necessariamente limites: não podemos nem devemos tolerar tudo. Não se deve tolerar o intolerável, que, no caso da França, se define principalmente em relação à lei republicana e democrática. Ora, essa lei integra a necessidade do respeito e o dever de tolerância, mas desde que não se transgrida a lei nem os valores fundadores da Declaração Universal dos Direitos Humanos."

A crise atual se explicaria em parte, segundo essa cadeia de raciocínio, pela reação de pais e educadores à autoridade que "destrói". Sua busca por uma educação mais libertária, no entanto, se expressaria equivocadamente em uma renúncia ao exercício da autoridade, e não ao exercício da autoridade que "constrói", com sua ênfase nos valores do respeito e da tolerância. "Saber dizer não a uma pessoa é respeitá-la, desde que se saiba dizer não ao que ela faz, sem dizer não ao que ela é: recusar uma conduta sem rejeitar a pessoa", resume Guillot.

"Certamente há um impacto nas escolas dos deslocamentos da autoridade na contemporaneidade", observa Flávia. "Se há muito tempo se discute a 'crise da autoridade tradicional', hoje também a forma moderna da autoridade, a 'autoridade racional-legal', encontra-se questionada. A essa situação geral soma-se a dificuldade que temos, no Brasil, de compreender o que é?autoridade, pois o que nos domina é a figura?do 'chefe-despótico', como a figura típica brasileira que encarnaria a autoridade."

Oscilamos assim, de acordo com a análise de Flávia, entre "uma permissividade que inclui o abandono do nosso lugar de adultos e uma severidade extremada, autoritária e despótica". "Ou 'passamos a mão na cabeça' ou matamos, prendemos, surramos? Não haverá alternativas? Daí ser de fundamental importância a discussão da autoridade do professor (da autoridade da pedagogia) e do lugar da educação na atualidade."

A força do sentido

"O professor perdeu a autoridade que tinha", avalia Yves de La Taille, docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Nascido na França, vive desde a infância no Brasil, onde se formou em psicologia e se especializou em desenvolvimento moral. Autor de Moral e ética - Dimensões intelectuais e afetivas e Vergonha - A ferida moral, é também co-autor de diversas coletâneas, entre elas Indisciplina na escola - Alternativas teóricas e práticas, organizada por Julio Groppa Aquino.

Seu artigo nesse volume, "A indisciplina e o sentimento de vergonha", começa com uma pergunta que intriga diversos autores desde o início do século 20: por que as crianças obedecem? As diferentes respostas obtidas "levavam em conta o que era considerado um fato: as crianças obedecem a seus pais e, em geral, também a seus professores". Hoje, "parece-me que a pergunta formulada espontaneamente seria a inversa: por que as crianças não obedecem, nem a seus pais, muito menos a seus professores?".

"Não sei se, antigamente, elas obedeciam tanto assim e se são tão desobedientes hoje", pondera. "Porém, parece ser esta a queixa atual, traduzida notadamente pelo vocábulo 'limite': as crianças, hoje, não teriam limites, os pais não os imporiam, a escola não os ensinaria, a sociedade não os exigiria, a televisão os sabotaria etc." Sua tese central nesse artigo é de que a indisciplina em sala de aula é, entre outros fatores, "decorrência do enfraquecimento do vínculo entre moralidade e sentimento de vergonha".

De La Taille cita o ensaio A tentação da inocência, do francês Pascal Bruckner, para quem "nossa época cessou de reverenciar o estudo e a instrução" e não existe "quase mais nada da vergonha que assolava, há pouco tempo, o mau aluno, o ignorante. Pelo contrário, ei-los que reinam na mídia, novos reis preguiçosos, que, longe de se enrubescerem de não saber nada, se orgulham disto. (...) Não satisfeitos em ridicularizar a escola e a universidade, pretendem suplantá-las e provar que o sucesso e o dinheiro não passam mais por esses templos do conhecimento".

Quais as origens da crise de autoridade na educação?
Há uma crise de autoridade na sociedade como um todo. Atinge as autoridades religiosas, os chamados sacerdotes, e os políticos - que, não por acaso, são chamados de "autoridades". A autoridade dos professores vinha do fato de serem portadores do conhecimento enquanto preciosidade em si. Seu papel foi desvalorizado pelo acesso à informação, que se tornou muito amplo, e pela busca das pessoas por uma espécie de informação que seja útil no momento seguinte.

Essa crise é incontornável?
Para que haja uma reviravolta, a escola precisaria participar ativamente do processo de reconstrução da autoridade e valorizar o conhecimento. Sugiro aos jovens professores, em especial, que não se esqueçam de que o conhecimento surge do sentido; e o que faz sentido é a pergunta que gerou o conhecimento, ou determinada resposta a uma inquietação. Qual era a inquietação de quem formulou uma idéia, uma teoria? Se não for assim, o professor passa aos alunos um pacote de teorias deslocadas de sua razão de ser. Se o educador for capaz de transmitir essa inquietação, a inquietação que leva ao conhecimento, haverá alguma chance de reaver sua autoridade. (SR)


Para saber mais


A autoridade do professor
, de Maria José Maya, Texto Brasil (Portugal), 2001.

Autoridade do professor, de Lúcia Teixeira Furlani, Editora Cortez, 1998.

Como enfrentar a indisciplina na escola, de Silvia Parrat-Dayan, Editora Contexto, 2008.

Conhecimento e valor, de Nilson José Machado, Moderna Editora, 2004.

Educação e autoridade, de Nilson José Machado, Vozes, 2008.

História de indisciplina escolar, Cintia Copit Freller, Casa do Psicólogo, 2001.

Indisciplina, disciplina - Ética, moral e ação do professor, de Yves de La Taille, Nelson Pedro-Silva e José Sterza-Justo, Mediação Editora, 2006.

Indisciplina em contexto escolar, de José Caeiro (Instituto Piaget, Portugal), 2005.

Indisciplina na escola - Alternativas teóricas e práticas, org. Julio Groppa Aquino, Editora Summus, 1996.

O resgate da autoridade em educação, de Gerard Guillot, Artmed, 2008.

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