quarta-feira, 28 de abril de 2010

A escola que queremos


Publicada em 27/4/2010
Opinião

Como diretor de um curso pré-vestibular que atende 6 mil alunos por ano, 80% deles oriundos da rede pública de ensino, recebo anualmente a radiografia da Educação do Estado de São Paulo . O resultado é alarmante: uma grande parcela dos estudantes, apesar de concluir o Ensino Médio, é formada por analfabetos funcionais – gente que não consegue ler, interpretar ou escrever a sua língua materna e não domina as quatro operações básicas da matemática; gente sem preparo para os desafios da vida, excluída do universo da cultura e sem qualificação para o mundo do trabalho e para o ingresso na universidade. Fica evidente, portanto, que a escola precisa ser reformulada. E que escola queremos? A greve realizada pela Apeoesp, uma vez mais, suscita o debate.

A reposição salarial dos professores é o primeiro ponto: é inadmissível que o Estado de São Paulo pague aos seus educadores menos de R$ 8 por aula. Como exigir que um docente se atualize, estude e se aperfeiçoe quando sua remuneração não permite o básico? Torna-se fundamental o reconhecimento da importância do educador: se é senso comum que Saúde e Educação devem ser prioridades de um governo, por que esse abismo de status e de valorização entre um professor e um médico?

Mas a questão salarial é somente uma parte do problema. Como alertou o economista Marcio Pochmann, em artigo publicado recentemente na Folha (30/3), São Paulo não acompanhou a evolução da riqueza do século XXI, obtendo, dentre todos os Estados, o segundo pior desempenho econômico entre 1990 e 2005. Para Pochmann, a falta de investimento paulista em educação e na geração de conhecimento é a grande causa da situação em que se encontra o Estado – e o maior reflexo disso vemos nas escolas públicas. À falta de investimentos somam-se absurdos erros do sistema educacional, como a “aprovação continuada”, que forma alunos “semianalfabetos” e que não sabem aplicar, em sua vida cotidiana, o pouco que aprenderam na escola.

E a cultura, ferramenta fundamental para a formação intelectual do jovem, ficou distante da escola, como se não fizesse parte da educação. Nada mais longe da verdade, como afirmou o próprio ministro da Cultura, Juca Ferreira, em entrevista à edição brasileira do Le Monde Diplomatique (janeiro de 2010). Ao invés de contribuir para a preparação e formação do estudante, o ensino regular entrega uma carga de conteúdo mal-aplicado e excessivo. Com tudo isso, a escola acaba sendo vista pelos alunos como um lugar chato, sem sentido e obrigatório. Ou seja, “deseduca”.

O currículo escolar precisa ser revisto: é necessária uma nova proposta que aproxime a escola da vida cotidiana do educando, valorize as relações entre as diversas áreas do conhecimento, permita o desenvolvimento de competências, reconheça a cultura como um direito e prepare o aluno para o mundo do trabalho e para a vida acadêmica.

A valorização dos professores, a modificação do ambiente escolar, a relação com a comunidade e um projeto pedagógico claro e objetivo são caminhos iniciais óbvios. Vários diretores de escola, espalhados pelo Estado, conseguem fazer das suas escolas ambientes de convívio e aprendizagem. Experiências realizadas por entidades do terceiro setor demonstram que é possível estabelecer com o educando uma relação mais acolhedora, através do diálogo, levando as questões do dia-a-dia para a escola, respeitando as diferenças e as necessidades.

É hora de aproveitar o assunto em pauta para propor uma reforma em todo o ensino público paulista. Que o Governo de São Paulo faça a sua parte, valorizando a escola e acreditando que a educação deve ser pública, gratuita e de qualidade. Quem sabe assim, num futuro próximo, os estudantes não precisem mais fazer cursinhos pré-vestibulares para “recuperar” em nove meses o conhecimento que não aprenderam em uma década na escola.

Gilberto Alvarez Giusepone Jr., engenheiro metalurgista formado pela Escola Politécnica da USP, é diretor do Cursinho da Poli

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