terça-feira, 16 de abril de 2013

Guia ensina a distinguir criança levada da que precisa de atenção especial

O guia do National Institute for Health and Clinical Excellence (Nice) ensina aos pais maneiras de identifica e lidar com o problema

Autoridades britânicas do setor da saúde publicaram um guia que auxilia pais a distinguir crianças 'levadas' daquelas que precisam de atenção profissional. Cerca de uma em cada 20 crianças britânicas apresenta o que os especialistas qualificam de transtornos de conduta, ou seja, mau comportamento persistente e extremo.

O guia do National Institute for Health and Clinical Excellence (Nice), órgão britânico que orienta os médicos do país, ensina aos pais maneiras de identifica e lidar com o problema. Segundo o Nice, crianças com transtorno de conduta podem desenvolver problemas mentais sérios na idade adulta. Algumas tornam-se infratores persistentes da lei. E os pais têm um papel fundamental a cumprir se quiserem reverter esse processo.

Em entrevista à BBC, um dos autores do guia, o psicanalista Peter Fonagy, disse que o divisor de águas entre um comportamento sapeca e um problema mais sério é a frequência e consistência das ocorrências.

Falando especificamente sobre as crianças brasileiras, o psicanalista disse que a forma de interação entre pais e filhos no Brasil tende a reforçar o comportamento positivo, o que é mais apropriado.

Direito do Outro

Toda criança pode ser levada ocasionalmente. Mas o comportamento da criança com um transtorno de conduta é diferente, explicou Fonagy.

Ela se comporta mal com grande frequência, tanto em casa quanto na escola. E suas ações podem ser extremas e danosas - como furtos, brigas, destruição de propriedade, crueldade com animais.

Fonagy, que é professor de psicanálise da University College London, tomou como exemplo o comportamento cruel em relação a animais. "Digamos que a criança chutou o cachorro da família e ele ficou machucado", disse.

"Se a criança tem idade suficiente para considerar a experiência do animal e continua sendo malvada, de forma consistente, esse tipo de comportamento chamaria mais a minha atenção", disse. "Qual foi a última vez em que isso aconteceu? - eu perguntaria à mãe".

"Digamos que a criança tenha idade escolar. Se a mãe me diz que os incidentes de crueldade com animais aconteceram em muitos contextos diferentes, com muitos animais, e que a criança não tem consideração com as outras pessoas, eu ficaria atento".

"Porém, se ela me diz que o menino é sempre tão bonzinho, mas às vezes fica bravo e outro dia chutou o cachorro, vou perguntar se ele fez isso novamente". O comportamento tem de ser persistente e afetar muitas pessoas, ressaltou Fonagy.

"Transtorno de conduta é um diagnóstico sério, ele tem de afetar seriamente os direitos humanos de outra pessoa ou os direitos de um animal".

Fonagy citou exemplos de crianças que se comportam bem na escola, com os amigos e vizinhos, mas não obedecem à mãe em casa.

"Nesse caso, talvez os pais precisassem de um pouquinho de ajuda". Mas casos assim não constituem transtornos de conduta, ele enfatizou.

Por outro lado, agredir, ferir, desrespeitar normas sociais - normas importantes - podem ser sinais de que a criança precisa de atenção especializada.

"Ficar fora de casa a noite toda, não ir à escola, ou, na escola, perturbar a ordem, de forma extrema", ele citou.

Reforço Positivo

Quando existe um problema, a forma de lidar com ele dependerá da idade da criança. Fonagy disse que se a criança é pequena, com oito ou nove anos, e vive em um lar razoavelmente estruturado, o primeiro passo é sugerir que os pais frequentem um grupo de apoio para pais.

"Ali eles aprendem como ensinar uma criança que não responde à disciplina a se comportar e se relacionar socialmente", explicou.

"Vão encontrar pais na mesma situação e aprender a ser consistentes, positivos, a incentivar comportamentos positivos em vez de se focarem nos negativos".

E para uma boa relação com os filhos, é fundamental que os pais passem tempo com a criança.

"Esse é um aspecto fundamental do programa, que o pai aprenda a passar tempo de qualidade com a criança", explicou Fonagy.

"Você investe moeda no banco do relacionamento e você pode sacar essa moeda quando a criança se comporta mal".

"Se eu digo para a criança, vou ficar triste se você fizer isso, mas não investi o suficiente naquela criança, ela não vai se importar muito com os meus sentimentos".

Modelo Brasileiro

Fonagy disse que, muitas vezes, os pais ignoram a criança quando ela se comporta bem. Mas lhe dão atenção quando ela faz coisa errada. "Você não pode apenas dizer não. Tem de achar formas de reforçar o (comportamento) de que você gosta, procurar coisas de que você gosta, sistematicamente."

"Não dê atenção quando forem levados. É melhor dar atenção quando eles estão se comportando bem", aconselhou.

Peter Fonagy já esteve no Brasil, onde participou de congressos da Associação Brasileira de Psiquiatria. Comparando, em linhas gerais, a situação da criança no Brasil e na Grã-Bretanha, ele disse ter a impressão de que há maior negligência infantil no Brasil.

"Mas essa negligência é mais um resultado da pobreza e desigualdade social do que do descaso dos pais."

Muito pelo contrário, ele disse. No que se refere à forma de interagir com a criança, pais brasileiros acertam mais. "Existe mais foco sobre a criança no Brasil do que na Inglaterra. Os pais brasileiros têm um estilo muito mais positivo de educar."

"Quando tentamos ensinar pais (britânicos) a ser positivos, estamos tentando ensiná-los a ser mais como os brasileiros", disse. "(No Brasil) A cultura é mais focada na criança e mais apropriada", disse o especialista. "Claro que aqui estamos fazendo generalizações", ele salientou.

"Mas colocar o foco sobre a criança significa aceitar que crianças são crianças e não pequenos adultos - como acontece no Brasil."

Casos Mais Difíceis

Fonagy explicou que, se o apoio oferecido aos pais não for suficiente, ou se a criança for mais velha, talvez ela tenha de ser vista sozinha, pelo especialista, para que se identifique a origem do problema.

Na maioria das vezes, no entanto, a família toda precisa ser envolvida no processo, ou seja, os pais e e criança (ou crianças) fazem terapia juntos.

"E há os casos extremamente graves, em que um profissional quase se muda para a casa da família para trabalhar no lar. É o que chamamos de terapia multissistêmica".

"É um tipo de terapia de família, mas usada apenas em casos muito extremos."

O guia do Nice ressalta que é importante identificar o problema cedo, para que pais e crianças recebam apoio a tempo, rompendo o padrão daquele comportamento.

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