sábado, 8 de junho de 2013

A missão da educação

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 06 de junho de 2013.

Marcelo Miterhof
A educação não é tão crucial ao desenvolvimento como dito por alguns; ela é mais resultado do que requisito.

É comum o argumento de que o ensino de baixa qualidade é a causa final da dificuldade do Brasil de se tornar desenvolvido.

Em épocas de prosperidade, isso é usado para alertar contra a ilusão do consumo. Como a economia é cíclica, as crises sempre chegam, dando a chance para a constatação implacável: "Viu no que dá não fazer o dever de casa?".

Há ainda um uso diversionista do tema. Ninguém discorda de que a educação precisa melhorar no Brasil. Contudo, não é isso que está em jogo no debate econômico. O apelo à educação é um expediente de quem crê que o Estado não deve ter políticas monetária e fiscal ativas nem intervir nos esforços produtivos.

O ativismo econômico atrapalharia sua ação naquilo em que ele seria de fato crucial: a educação.

População educada, carga tributária baixa etc. bastariam para estimular o empreendedorismo e, assim, o desenvolvimento.

Entretanto, a educação não é tão crucial ao desenvolvimento econômico, como obstáculo ou alavanca.

Se preciso, não faltam engenheiros europeus dispostos a trabalhar no Brasil. Se ela fosse um impulso tão decisivo, a Rússia seria hoje altamente desenvolvida, pois o comunismo fez um dos mais impressionantes esforços de educação e ciência já vistos.

A educação é mais resultado do que requisito do desenvolvimento. É claro que as coisas se retroalimentam, mas o arranque vem mais do aspecto econômico. Na Coreia, a educação é um sucesso, mas foi o capitalismo coreano que puxou o desenvolvimento. De qualquer forma, não há um dilema em questão. A educação tem um valor em si e é dessa maneira que vale a pena tratar do tema.

Pouco entendo de educação. Ainda assim, peço licença para fazer algumas reflexões diletantes. Agir diletantemente tem o sentido de fazer algo com amor ou de forma pouco sistematizada. As reflexões a seguir sofrem das duas coisas.

Uma das razões que me fizeram cursar outra faculdade foi a vontade de após a aposentadoria dar aulas na escola pública. Isso mostra um dos problemas do ensino básico no Brasil: não ser uma boa opção de emprego. Ser professor, sim, mas só quando não precisar mais trabalhar para ganhar a vida.

Nas gerações mais antigas de minha família, há pelo menos seis professoras de escola pública. A profissão era uma boa opção, ao menos para mulheres, quando o trabalho feminino não era tão comum. Hoje, apenas uma prima é professora.

Um país de renda mediana como o Brasil pode pagar um salário anual médio de R$ 100 mil para que o magistério seja uma profissão atrativa. Como o país tem cerca de dois milhões de docentes na escola básica, o gasto anual ao fim da mudança seria de R$ 200 bilhões, menos de 5% do PIB de 2012.

O aumento salarial ao menos em parte precisaria depender de novos concursos. Senão, há o risco de aumentar o gasto sem melhorar a qualidade dos professores. Talvez o papel direto da União na educação básica devesse aumentar, realizando concursos nacionais para contratar professores e criar um sistema de alocação que incentive o jovem de regiões mais ricas a se mudar.

O Brasil também pode tirar vantagens do atraso. Mesmo nos países ricos, é comum privilegiar os aspectos culturais do conhecimento. O Brasil pode saltar à frente intensificando a dedicação às ciências, enfatizando conteúdos mais atuais. Ensinar aos jovens noções básicas de mecânica quântica, relatividade, neurociência e geometrias não euclidianas, entre outras coisas, não é tão difícil.

Tais alterações curriculares sofisticam o entendimento que temos do mundo, por exemplo, flexibilizando o determinismo da física newtoniana e o domínio da geometria euclidiana na racionalização do espaço.

Isso não quer dizer que se deva reduzir o espaço das humanidades. Por exemplo, no Brasil o esforço em línguas precisa crescer. Há também o que ser revisto em história, que tem sofrido com um peso excessivo do entendimento marxista.

Essas são mudanças tão difíceis que o seu equacionamento fiscal deve ser o menos problemático. Para citar um obstáculo, o conflito de ter dois corpos docentes seria enorme e duro de resolver. Outra dúvida é se o país tem hoje quantidade de pessoas preparadas para promover as mudanças de conteúdo.

A tarefa não é trivial. Mas ajuda a fazer escolhas ao menos ter claro por que a educação é prioridade: ela é uma missão civilizatória.
MARCELO MITERHOF, 39, é economista do BNDES.

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