domingo, 25 de agosto de 2013

Reprovando a repetência

HÉLIO SCHWARTSMAN
SÃO PAULO - A reprovação do aluno deve constituir um arquétipo cravado no inconsciente coletivo do brasileiro, porque é algo de que não conseguimos nos livrar, apesar de haver razoável evidência de que a retenção transita entre o inútil e o contraproducente. É pena, portanto, que o plano de educação do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, volte a apostar nessa fórmula.
Ao menos em teoria, a reprovação serviria para garantir a solidez da formação, dado que o estudante só progrediria com a certeza de ter assimilado o necessário para avançar. As evidências empíricas, porém, mostram que não é bem assim. Metanálises como a de Holmes e Matthews (1984) e a de Jimerson (2001) compararam os resultados de dezenas de estudos e concluíram que, ao menos no ensino elementar, a reprovação não só não é benéfica como pode piorar o desempenho do aluno.
E a questão acadêmica não é a única a considerar. No plano pessoal, a pecha de repetente é um fardo pesado. O estudante é privado do convívio com seus colegas e amigos e já chega rotulado como fracassado em seu novo círculo de relacionamentos.
Outro bom argumento contra a repetência é fiscal. No Brasil, 10,6% das crianças do ensino fundamental público foram retidas em 2011 e, no médio, 14,1% (dados de 2011). Numa conta de guardanapo, considerando os investimentos por aluno, isso resulta num custo para os cofres oficiais da ordem de R$ 16 bilhões ao ano. É um preço meio exagerado para dar ao professor um instrumento de poder sobre alunos rebeldes.
Se o aluno não aprende, existem duas possibilidades: ou o problema está no estudante, ou na escola. No primeiro caso, não há muito o que fazer. E não parece inteligente obrigá-lo a repassar pela mesma experiência esperando resultados diferentes. Se a falha está no sistema, então o buraco é mais embaixo. E a reprovação como meio de corrigir o problema fica algo ainda mais sem sentido.

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